Exploração de carvão mineral em Moatize – Um eterno drama para as comunidades locais

Exploração de carvão mineral em Moatize – Um eterno drama para as comunidades locais

São histórias que retratam uma realidade gritante. A riqueza que era suposto dinamizar o desenvolvimento no seio das comunidades, tem gerado desgraça. A cada dia que passa, cresce o número de vozes descontentes, pessoas que perderam sua terra herdada através de gerações para as multinacionais, ávidas pelo lucro fácil e despreocupadas com o bem-estar dos legítimos donos da terra.

Em Moatize, província de Tete, as comunidades locais têm há anos, travado uma guerra campal com a Vale, visando entre outras coisas, verem seus direitos respeitados, mas debalde.

Carlos Barroso, residente no bairro de Bagamoio, Unidade “6”, distrito de Moatize, província de Tete, caminha como quem carrega o fardo do mundo nas costas. Tem um olhar longínquo e triste. É um homem que carrega as frustrações paridas pela incerteza. “A minha casa tem rachas e pode desabar a qualquer momento, devido às explosões da mina da Vale. Temo pela minha vida e dos meus três filhos”, desabafou Carlos Barroso que conta que, quando a Vale chegou em Moatize prometeu explorar o carvão mineral sem criar danos às comunidades, até porque os que viviam próximo à mina seriam reassentados.

“Mas ao longo do tempo, a mineradora foi aumentando a sua área de exploração, e consequentemente, as nossas casas ficaram inundadas de poeira, estrondos e machambas invadidas. Quando vamos a empresa apresentar estas questões eles disseram que é normal, porque essa poeira até Zâmbia chega”, contou Barroso que acrescentou que, algumas famílias receberam valores de compensações pelas terras, contudo, os montantes foram irrisórios.

“A Vale paga pelas indemnizações por cada machamba, um valor de cinco mil meticais, mas cada espaço de produção vendido poderia produzir 10 mil meticais por cada sementeira. Para piorar, nos últimos anos, as temperaturas chegam a atingir 46º C. Pensamos que a exploração do carvão contribui para as alterações climáticas”, disse para depois confessar que o maior desejo da comunidade afectada é de migrar “porque as poeiras trazem consigo grandes constrangimentos de doenças, sobretudo, a tuberculose.

Oleiro de profissão, José Franco Ngalizo contou à equipa da Livaningo que, antes de ver seu espaço de sustento “abocanhado” pela gigante brasileira Vale, houve promessas que até hoje não se efectivaram. “Ainda não vimos nenhum desenvolvimento de um projecto de rendimento ou uma formação profissional para que os nossos filhos sejam contratados na Vale. Antes de perder tudo, por cada forno pelo menos conseguia garantir um sustento para minha família”.

Para António, nos últimos anos, tem sido insuportável viver perto da mina. “Sabemos que com estas poeiras o tempo de vida da pessoa fica reduzido porque trazem consigo problemas respiratórios e outros tantos. Por exemplo, quando explodem a mina, crianças e idosos ficam assustados. Em alguns casos, as mulheres grávidas desmaiam. Todas essas inquietações tentamos expor a quem é de direito, mas sem sucesso.

Nos finais de 2018, membros da Assembleia da República, aproximaram-se às comunidades para ouvir as nossas inquietações. Disseram que trariam respostas mas de lá para cá, nem água vem, nem água vai. Em nome da comunidade do 1º de Maio, peço reassentamento em um lugar seguro e com condições habitacionais”

 

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