Mulheres queixam-se de insuficiência de alimentos

Mulheres queixam-se de insuficiência de alimentos

Exploração de areias pesadas nos distritos de Moma, Angoche e Larde:

Numa altura em que as empresas procuram expandir as suas áreas de produção, as comunidades estão presas em pequenas parcelas para produção de alimentos. “Assia Jordão, mãe de cinco filhos diz que antes da entrada da empresa, conseguiam 200 sacos de Karakata (mandioca seca) mas depois do início das explorações, a produção baixou para 2/3 sacos por ano. Isso deveu-se a facto da empresa ter transformado as machambas em campos de exploração do mineiro.

“Hoje para alimentarmos as nossas famílias durante o ano inteiro temos que comprar. A mandioca por saco custa 1000 meticais e vem de Mukwali que dista 50 km. Os nossos maridos são pescadores e nem sempre conseguem vender peixe e ter dinheiro suficiente”. Amélia João, de 49 anos e mãe de sete filhos, conta que normalmente, um saco para uma família de sete pessoas é consumido em 14 dias.

Com a falta de machambas e alternativas para continuar ou melhorar o nível de produção de alimentos houve redução da dieta alimentar “antigamente tínhamos três refeições por dia. Mas hoje, só temos uma refeição por dia por que já não temos comida suficiente para o ano inteiro”, disse Aida Cassimo, viúva com cinco filhos por sustentar, que acrescentou que algumas zonas baixas já foram tomadas pela empresa, o que impede diversificação da produção, “a cultura de arroz era produzida nas zonas baixas, hoje, já não produzimos porque a Kenmare usa para exploração.

Outro aspecto levantado pelas comunidades afectadas tem a ver com o acesso de combustível lenhoso. Assia Amide, mãe de sete filhos conta que “hoje em dia não tem sido fácil obter a lenha. As máquinas da empresa desbravam tudo e tem zonas que já não podemos aceder porque tornaram-se propriedade da empresa”.

As comunidades dos distritos de Moma, Larde e Angoche dependem da biomassa lenhosa para múltiplo uso doméstico. Com a escassez deste fonte de energia são obrigadas a percorrer longas distâncias e muitas vezes sujeitas a conflitos sociais, visto que as mesmas invadem outras comunidades ou machambas que não as pertencem, como conta Antonieta: “nesta comunidade não há lenha. Confiamos em usar as raízes de mandioqueiras mas essas só existem em um determinado tempo. Para obter lenha temos que percorrer longas distâncias”.

Perda de oportunidades económicas

Apesar de a agricultura constituir a base de subsistência para as populações, as comunidades praticam outras actividades de rendimento, tais como a pesca e o comércio em pequena escala. As pessoas residentes nas comunidades de Coropa e Tipane nos distritos de Moma e Larde, ultimamente têm notado a redução das suas actividades pesqueiras, como explica Júlio Cassimo. “Nos últimos dias, não existe muito peixe por causa do barulho provocado pelas operações da empresa. As zonas para a prática da actividade pesqueira tornaram-se distantes, visto que há zonas onde hoje não se pode pescar no “fishing zones” porque a empresa proíbe”. Ainda Segundo Júlio, as vias de acesso para as áreas pesqueiras estão na sua maioria bloqueadas, devido a ocupação da empresa. “Não podemos passar usando o caminho habitual porque já está fechado.

Ao contrário da pesca, Ambrósio Casimiro disse que com a chegada da Kenmare houve dinamismo ao nível do comercio local “como não temos machambas, outra actividades que fazemos é a venda de produtos diversos. Antes não havia mercearias aqui, mas hoje já temos”. João Marinho de 65 anos de idade, disse que apesar de tanto dinamismo econômico sente falta da forma artesanal como vivia antes da chegada da mineradora. “Com o aparecimento da empresa, estamos a viver uma vida da cidade, tudo se vende e tudo está caro aqui. Sem contar que as nossas irmãs se meteram na prostituição para ganhar dinheiro. Sentimos falta da nossa vida rural”.

Impactos ambientais

Os moradores das comunidades nos distritos de Larde, Moma e Angoche apontaram a problemática a poluição do meio ambiente e o desaparecimento da biodiversidade natural, que são componentes do ecossistema local.

Júlio Momade, de 45 anos e pai de cinco filhos, pescador há mais de 30 anos, revelou que a mina esta a 20 metros da sua residência, “toda poeira que sai de lá, vem desaguar nas nossas casas. A nossa água e farinha ficam totalmente empoeiradas”, disse Momade que foi secundado pelo Armando que apontou que a poluição levou a redução do pescado “hoje em dia não apanhamos muito peixe por causa do barulho das máquinas, certas espécies fugiram do local onde pescamos”.

Associado ao problema da poluição, está a falta de fontes de água doce, segundo aponta António Issufo: “aqui não temos água doce, bebemos água que os trabalhadores da empresa não consomem. Onde vivíamos antes, tínhamos água doce, pois tínhamos muitos rios.”

Na mesma senda, Abarcar António, afectado pela Haiyu Mining em Angoche, disse que a empresa terá destruído todo o ecossistema da comunidade. Assia Issufo lamenta que hoje não pode alimentar os seus filhos dos frutos silvestres, “antes quando não tínhamos comida, recolhíamos algumas frutas silvestres que hoje com a chegada da empresa já não temos. Também não temos certas plantas que eram usadas para cura de certas doenças, como dores de cabeça, barriga, malária, etc. Algumas plantas eram usadas pelas mulheres grávidas quando quisessem conceber, visto que estamos longe de hospital. Temos que percorrer longas distâncias, mais de duas horas para termos acesso aos cuidados de saúde”, desabafou Assia.

A experiência das comunidades de Kwirikwidji e Mutiticoma constituem um alerta vermelha para a comunidade de Corpa, que em breve será afectada pelas duas empresas Kenmare e Haiyu Mining. Os residentes desta comunidade receiam em perder as suas fontes de sobrevivência. “A chegada dessas empresas, irá destruir tudo que temos, por isso, recomendamos que as mesmas não venham para destruir as nossas fontes de rendimentos”.

De um modo geral, as comunidades não contestam os investimentos, pois acreditam no potencial que os mesmos têm em contribuir para o desenvolvimento da comunidade, contudo, contestam os seus modus operandis que colam em causa a sua sobrevivência. “Essas empresas só querem fazer lucro e para isso, não se preocupam com a nossa forma de viver muito menos com as fontes de vida”, disseram.

 

Comments

comments


Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *